A saúde mental ocupa um espaço importante nas conversas sobre segurança do trabalho, qualidade de vida e gestão de pessoas, e em setembro esse debate ganha ainda mais força com o Setembro Amarelo, movimento que leva para empresas, escolas, instituições e famílias a prevenção do suicídio, um assunto que ainda carrega medo, silêncio e preconceito.

No ambiente profissional, falar sobre saúde mental exige cuidado, informação e preparo. O trabalhador convive diariamente com colegas, gestores, cobranças, metas, mudanças e diferentes condições de trabalho. Por isso, perceber alterações de comportamento, oferecer uma escuta atenta e orientar sobre onde buscar ajuda pode fazer diferença para alguém que esteja passando por um momento de angústia.

As normas de segurança e saúde no trabalho passaram a dar mais atenção aos fatores psicossociais ligados ao trabalho. A Portaria MTE nº 1.419/2024 alterou o capítulo 1.5 da NR-1 e incluiu esses fatores no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), com a nova redação que entrou em vigor em 26 de maio de 2026.

No artigo de hoje explicaremos o que é o Setembro Amarelo, como o movimento chegou ao Brasil, quais são os primeiros sinais de alerta nos colaboradores, qual é o papel da empresa na prevenção do suicídio, quais ações podem ser feitas durante o ano todo, e como saúde mental e segurança do trabalho se relacionam. Continue a leitura!

O que é o Setembro Amarelo?

O Setembro Amarelo é uma mobilização voltada à valorização da vida e à prevenção do suicídio, com o propósito de ampliar o diálogo sobre saúde emocional, reduzir preconceitos e aproximar as pessoas das redes de apoio.

No Brasil, o movimento teve sua primeira edição em 2015, com a participação do Centro de Valorização da Vida (CVV) como um dos principais responsáveis por impulsionar a campanha. Naquele ano, três marcos aconteceram ao mesmo tempo:

» Lançamento do site oficial da campanha
» Criação do selo “Falar é a melhor solução”
» Início do atendimento pelo número 188, em projeto-piloto no Rio Grande do Sul

A escolha do mês de setembro tem relação direta com o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado em 10 de setembro. A proposta da campanha não se limita a divulgar uma cor ou realizar uma ação pontual, ela propõe criar oportunidades para conversar sobre saúde mental, dor emocional, acolhimento e busca por ajuda.

Dentro das empresas, essa abordagem permite levar o assunto para além de campanhas internas, criando espaços de diálogo capazes de aproximar trabalhadores, gestores, profissionais de Recursos Humanos, integrantes da CIPA e equipes de segurança e saúde ocupacional.

Como o Setembro Amarelo chegou ao Brasil

A história do Setembro Amarelo no Brasil está ligada de forma direta ao trabalho desenvolvido pelo CVV na prevenção do suicídio e no apoio emocional. A primeira edição ocorreu em 2015, período em que a campanha começou a ganhar espaço entre empresas, escolas, órgãos públicos, entidades e diferentes setores da sociedade.

É importante destacar também a ampliação do atendimento telefônico. O número 188, iniciado em 2015 no Rio Grande do Sul, passou por uma expansão nacional depois de uma parceria entre o CVV e o Ministério da Saúde, e em 30 de junho de 2018 o serviço já estava disponível nos 26 estados e no Distrito Federal.

Essa expansão ajudou a aproximar a população de um canal de apoio emocional sem custo, disponível 24 horas por dia. Hoje, o CVV informa que oferece atendimento pelo 188 e por outros canais, com voluntários treinados para oferecer escuta e acolhimento.

Para o ambiente corporativo, conhecer essa trajetória ajuda a compreender que o Setembro Amarelo é uma oportunidade para ampliar o acesso à informação e estimular uma cultura na qual falar sobre dor emocional não seja motivo de vergonha.

Quais são os primeiros sinais de alerta nos colaboradores?

Reconhecer sinais de dor emocional exige atenção, respeito e cuidado para evitar julgamentos ou diagnósticos feitos por pessoas sem formação na área. Um comportamento isolado não permite concluir que alguém esteja em risco, mas mudanças persistentes ou várias alterações acontecendo ao mesmo tempo merecem atenção.

Entre os sinais que podem despertar preocupação, estão:

» Mudança acentuada de comportamento
» Isolamento ou redução do contato com colegas
» Queda significativa de rendimento
» Faltas e atrasos recorrentes
» Alterações no sono ou na disposição
» Irritabilidade ou mudanças intensas de humor
» Demonstração frequente de desesperança
» Comentários sobre não encontrar sentido para continuar
» Falas relacionadas à morte ou ao desejo de desaparecer
» Descuido com atividades que antes despertavam interesse

No dia a dia de uma empresa, perceber uma mudança como um trabalhador que antes participava das conversas e passou a se afastar dos colegas pode ser um sinal para uma aproximação cuidadosa. Em vez de interpretar ou rotular, o gestor pode procurar um espaço reservado, perguntar como a pessoa está e demonstrar disponibilidade para ouvir.

Quando houver manifestação direta sobre intenção de tirar a própria vida, a situação exige atenção imediata e encaminhamento para atendimento profissional ou serviço de emergência, conforme o grau de risco. A empresa não deve tentar assumir o papel de psicólogo, médico ou serviço de urgência.

Também é importante evitar frases que minimizem a dor da pessoa. Uma escuta respeitosa permite reconhecer essa angústia sem transformar a conversa em julgamento.

Qual é o papel da empresa na prevenção do suicídio?

A empresa tem um papel relevante na promoção da saúde mental, porque as condições de trabalho podem ter impacto no bem-estar dos trabalhadores. Excesso de cobrança, falta de autonomia, conflitos, assédio, cargas horárias longas, pressão por produtividade, ausência de apoio e outras características da organização do trabalho podem estar relacionadas a fatores de risco psicossociais.

A atualização da NR-1 reforçou essa relação ao incluir, de forma clara, os fatores de risco psicossociais ligados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). A avaliação deve considerar as exigências da atividade e a eficácia das medidas de prevenção adotadas.

Para a área de Segurança do Trabalho, isso significa uma ampliação do olhar sobre os riscos presentes no ambiente corporativo. Avaliar saúde ocupacional não significa observar apenas máquinas, instalações, produtos químicos, ruído ou riscos de acidentes, pois a organização do trabalho também pode produzir condições capazes de afetar a saúde.

A empresa pode atuar por meio de ações como:

» Criar canais seguros para comunicação
» Capacitar lideranças para reconhecer sinais de alerta
» Orientar sobre serviços de apoio psicológico
» Combater situações de assédio e violência no trabalho
» Avaliar fatores psicossociais relacionados às atividades
» Promover diálogo entre trabalhadores e gestão
» Respeitar pausas, limites e períodos de descanso
» Encaminhar trabalhadores para atendimento especializado quando necessário

Também cabe evitar a exposição pública de quem procura ajuda. Informações relacionadas à saúde emocional devem receber tratamento cuidadoso, mantendo a privacidade do trabalhador.

Quais ações de saúde mental podem ser feitas durante o ano todo?

O Setembro Amarelo pode abrir o debate, mas a promoção da saúde mental precisa continuar presente ao longo de todo o calendário corporativo. Uma campanha concentrada em cartazes durante o mês de setembro perde força quando o dia a dia de trabalho continua marcado por cobranças excessivas, conflitos não tratados ou falta de canais de comunicação.

Por isso, uma empresa pode criar um programa de saúde mental no trabalho integrado às demais ações de Segurança e Saúde Ocupacional. Entre as possibilidades, estão:

Treinamentos para lideranças

O treinamento deve preparar líderes para perceber alterações de comportamento, conduzir conversas respeitosas e orientar os trabalhadores sobre os canais de atendimento disponíveis.

Diálogos sobre saúde mental

Manter o assunto presente no dia a dia garante que a conversa não fique restrita a setembro. Os DDS, reuniões e encontros internos podem abordar temas como estresse ocupacional, ansiedade, depressão, relações profissionais, assédio e prevenção do suicídio, sempre com linguagem adequada e sem expor casos pessoais.

Avaliação dos fatores psicossociais

Essa avaliação ajuda a empresa a agir antes que determinada situação afete a saúde da equipe. Vale observar aspectos da organização do trabalho que possam gerar desgaste emocional, como excesso de demandas, falta de autonomia, conflitos, baixa previsibilidade das atividades e problemas relacionados à gestão.

Canais de comunicação

Sem um canal confiável, muitos casos nunca chegam ao conhecimento da empresa. É importante disponibilizar meios seguros para que os trabalhadores possam relatar situações que estejam afetando sua saúde ou segurança, inclusive problemas relacionados a assédio e violência.

Apoio profissional

Orientar sobre serviços de psicologia, assistência médica, programas de apoio ao empregado, unidades de saúde e canais de prevenção do suicídio, de acordo com a realidade da organização.

Acompanhamento das condições de trabalho

Um programa de saúde mental precisa evoluir junto com a empresa. Por isso, é preciso avaliar se as medidas adotadas estão produzindo resultados e revisar as ações sempre que surgirem novos riscos, mudanças na organização ou situações que indiquem necessidade de intervenção. A NR-1 prevê a revisão da avaliação de riscos em diferentes situações, incluindo mudanças nas condições de trabalho, acidentes ou doenças relacionadas ao trabalho e a identificação de medidas inadequadas ou insuficientes.

Esse conjunto de medidas permite transformar o Setembro Amarelo em uma iniciativa para uma política mais ampla de saúde mental no trabalho, sem limitar o assunto a uma campanha anual.

Saúde mental também é segurança do trabalho

A relação entre saúde mental e segurança do trabalho ganhou ainda mais importância com a inclusão dos fatores de risco psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais. O Ministério do Trabalho também disponibilizou guia e manual para orientar organizações e profissionais sobre a aplicação do capítulo 1.5 da NR-1.

Para o técnico de segurança do trabalho, essa mudança reforça a necessidade de observar a organização das atividades e a forma como o trabalho é planejado. Uma equipe submetida a pressão constante, conflitos, falta de recursos ou excesso de demandas pode apresentar alterações que também interferem na atenção, na tomada de decisão e na execução das tarefas.

Por isso, falar de prevenção de acidentes também envolve observar as condições humanas presentes no trabalho. Promover comunicação, respeito, acolhimento e acesso a ajuda especializada pode integrar as ações de saúde ocupacional e prevenção de riscos.

Conclusão

O Setembro Amarelo trouxe mais visibilidade para a prevenção do suicídio e ajudou a ampliar o espaço destinado ao diálogo sobre saúde mental no Brasil. Desde sua primeira edição, em 2015, a campanha passou a alcançar empresas, escolas, instituições e famílias, aproximando o tema do dia a dia de diferentes grupos sociais.

No ambiente de trabalho, reconhecer sinais de dor emocional, oferecer uma escuta respeitosa e orientar sobre os caminhos para buscar ajuda pode ser um gesto de cuidado. Para isso, gestores, profissionais de Recursos Humanos, técnicos de segurança, integrantes da CIPA e trabalhadores precisam receber informação adequada para saber como agir sem julgamento e sem tentar substituir o atendimento de profissionais especializados.

A prevenção do suicídio também precisa permanecer associada à gestão dos riscos ocupacionais durante os demais meses do ano. A inclusão dos fatores psicossociais na NR-1 reforça essa necessidade e amplia a responsabilidade das organizações na avaliação das condições que podem afetar a saúde dos trabalhadores.

Assim, utilizar o Setembro Amarelo para iniciar conversas, fortalecer canais de apoio, capacitar lideranças e avaliar as condições de trabalho permite construir uma abordagem mais consistente sobre saúde mental, prevenção do suicídio e segurança do trabalho.

Em caso de dor emocional ou necessidade de conversar, o CVV atende pelo telefone 188, sem custo, 24 horas por dia. Em uma situação de emergência ou risco imediato, procure um serviço de emergência ou acione o atendimento de urgência da sua região.

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